Alto Vale

Da “terra da cuccagna” ao Alto Vale: 150 anos da imigração italiana

Professor Fiorello Zanella relembra as causas da grande migração iniciada em 1875 e destaca o legado cultural e econômico dos italianos em SC

Da “terra da cuccagna” ao Alto Vale: 150 anos da imigração italiana Dia da Imigração Italiana no Brasil. Foto: Reprodução / Site embassynews

A partir de 1875, milhares de italianos deixaram a Europa em busca de uma vida melhor no Brasil. Fugiam da fome, da falta de trabalho, das epidemias e das guerras que marcaram o processo de unificação da Itália no século XIX. No Norte do país, regiões como Vêneto, Trento e Lombardia enfrentavam pobreza extrema, concentração de terras e jovens convocados para conflitos armados.

Segundo o professor e historiador Fiorello Zanella, membro do Coro Citavi, a esperança de dias melhores ganhou força quando o Brasil passou a ser divulgado como “il paese de la cuccagna”, a terra da fartura.

A expressão fazia referência a uma tradição italiana, a “árvore da cuccagna”, um poste engraxado com prêmios no alto. A ideia de que no Brasil haveria terras férteis e oportunidade de prosperidade alimentou o sonho de milhares de famílias.

A travessia e os primeiros desafios

A viagem até o Brasil durava mais de 30 dias. Os imigrantes vinham nos porões dos navios, em condições insalubres. Muitos adoeciam e alguns morriam durante a travessia. Ao chegar, parte seguiu para os cafezais do Sudeste, onde o trabalho era pesado e mal remunerado. Outros foram destinados ao Sul do país, onde recebiam lotes de terra que precisavam ser pagos com a própria produção.

Em Santa Catarina, os italianos desembarcaram no Porto de Itajaí e foram encaminhados à Colônia Blumenau. A partir dali, ocuparam áreas como Rio dos Cedros, Rodeio, Ascurra e Apiúna. Eram terras montanhosas, cobertas por mata virgem. Eles precisaram abrir picadas, construir casas, igrejas e escolas. Enfrentaram doenças como a malária, ataques de animais e conflitos com indígenas. No Alto Vale, um grupo de cerca de 50 lombardos chegou a Lontras, mas a colônia não prosperou e muitos retornaram ao Médio Vale.

A força do trabalho e o impulso à economia

Com o tempo, os colonos passaram da agricultura de subsistência ao cultivo comercial. O arroz e o fumo em folha se tornaram alternativas importantes. Em Rio dos Cedros, a produção de tabaco incentivada por técnicos agrícolas ajudou famílias a quitar suas terras.

Além da lavoura, os italianos fabricaram engenhos, atafonas e equipamentos para moagem de cana e milho. Assim, contribuíram para a formação de pequenas indústrias familiares e fortaleceram a economia catarinense.Fiorello destaca que a imigração europeia transformou o perfil econômico do Sul do Brasil: "A tradição do trabalho na terra e o desenvolvimento do comércio e da indústria passam por essa herança”, resume.

A presença italiana no Alto Vale

No Alto Vale do Itajaí, a colonização italiana ganhou força a partir de 1900. Primeiro em Rio do Sul, depois em Rio do Oeste, Laurentino, Agronômica, Taió, Salete, Mirim Doce, Rio do Campo e São José do Cerrito, além de municípios de origem alemã que também receberam famílias italianas, como Ituporanga e Presidente Getúlio.

Muitos descendentes tornaram-se comerciantes, industriais, líderes comunitários e políticos. A presença italiana também marcou os cartórios, as associações e a vida cultural da região. Hoje, círculos trentinos e associações italianas mantêm viva essa história em cidades como Rio do Sul, Rio do Oeste, Taió e Salete.

Cultura, canto e identidade

Se a economia foi transformada, a cultura também floresceu. Os imigrantes trouxeram o dialeto, a culinária, o costume das “sagras” e o espírito comunitário. A prática do mutirão, semelhante ao “pixurum”, reunia famílias para trabalhar e depois celebrar com música e comida.

O canto coral se tornou uma das maiores heranças culturais. No Alto Vale, diversos grupos mantêm essa tradição. O Coro Citavi, de Rio do Oeste, por exemplo, é formado apenas por vozes masculinas, inspirado nos corais de montanha da Itália.

Em 2025, os 150 anos da imigração italiana foram celebrados em todo o país. Em Santa Catarina, a abertura oficial ocorreu na Assembleia Legislativa, com participação de grupos culturais da região.

Para Fiorello Zanella, celebrar a data é olhar para o passado e também projetar o futuro: “Manter a língua, o canto e as associações é fortalecer a cultura catarinense e ampliar o intercâmbio com a Itália”, afirma.

Livro resgata 600 famílias do Alto Vale

Como parte das comemorações, Fiorello lançou o livro A Colonização Italiana no Alto Vale do Itajaí. A obra reúne a história e a genealogia de mais de 600 famílias italianas da região.

Além do valor histórico, o material pode auxiliar descendentes que buscam a dupla cidadania italiana. Novos lançamentos estão previstos para 2026 em municípios do Alto Vale.

A história iniciada em 1875 segue presente na identidade catarinense. Entre a polenta, o vinho, o canto coral e o trabalho na terra, os descendentes italianos continuam ajudando a escrever o desenvolvimento do Alto Vale e de Santa Catarina.

Ouça a reportagem de Vanessa Montibeller: 

 

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