O El Niño deve manter a chuva acima da média no Alto Vale durante boa parte da primavera e do verão. Em Ituporanga, os modelos indicam entre 230 e 240 milímetros acima do normal até 14 de outubro. O cenário pode aumentar os riscos de enxurradas, cheias, deslizamentos e problemas nas lavouras.
A projeção foi apresentada pelo engenheiro agrônomo Ronaldo Coutinho durante palestra realizada no sábado, dia 29, em Ituporanga. O encontro ocorreu no CT de Lonas e reuniu cerca de 300 pessoas ligadas ao agronegócio, Defesa Civil, comunicação e outros setores.
Segundo Coutinho, o fenômeno deve permanecer atuando até o inverno de 2027. A mudança mais consistente desse padrão climático é esperada apenas para o fim do próximo ano.
Chuva acima da média deve continuar no Alto Vale
Para o Vale do Itajaí, Coutinho estima volumes entre 150 e 200 milímetros acima da média neste período. Entre agosto e aproximadamente janeiro, o acumulado adicional pode chegar a valores entre 800 e 1.200 milímetros. “É mais ou menos como chover um ano em cinco ou seis meses. Até o dia 14 de outubro, grande parte do Estado estará acima de 500 milímetros de chuva”, afirmou.
A projeção aponta maior frequência de precipitações entre setembro e janeiro. Conforme Coutinho, janeiro e fevereiro podem apresentar uma pequena redução, com volumes mais próximos da normalidade. Além disso, o período tradicionalmente menos chuvoso entre o fim de novembro, dezembro e começo de janeiro tende a ser menor ou até pouco perceptível. “Não vai ter uma região do Estado que vai escapar. Cada uma vai ter o seu problema característico”, explicou.
Excesso de umidade preocupa lavouras de cebola
Na Microrregião da Cebola, o excesso de chuva pode interferir principalmente no controle de doenças, na adubação e na entrada de máquinas nas propriedades.
Segundo o engenheiro agrônomo Ronaldo Coutinho, o produtor terá de adaptar o manejo às condições previstas para a safra 2026/2027. “O El Niño vai trazer intervalos de dificuldade no controle de doença, no manejo do solo e na adubação. De preferência, ela deve ser fracionada, mas cada produtor precisa conversar com o seu técnico”, orientou.
Outro ponto de atenção será a quantidade de dias nublados. Conforme Coutinho, a combinação entre umidade, temperaturas mais baixas e menor incidência de sol pode afetar o florescimento da cebola. “O problema que eu vejo mesmo é o excesso de umidade. A dificuldade será entrar na lavoura com maquinário pesado e fazer o controle que precisa ser feito”, disse. Com isso, doenças podem exigir mais intervenções e aumentar os custos de produção durante a safra.
Manejo preventivo ganha importância em anos chuvosos
Para o representante da Bayer, Francisco Kirchner, a perspectiva de chuva acima da média exige planejamento antecipado e acompanhamento técnico mais próximo. “Existe uma previsão de mais chuvas, porém a gente precisa, lá no campo, adaptar o nosso manejo para o excesso de chuva”, afirmou.
Segundo Kirchner, algumas doenças tendem a encontrar condições mais favoráveis em anos úmidos. Por isso, o momento das aplicações e outras decisões de manejo podem precisar de ajustes. “Temos que entender que o manejo muitas vezes precisa ser mais antecipado, antes da chuva. Se der um intervalo, talvez o produtor não consiga entrar com o trator”, explicou. Ele também citou o uso de drones como alternativa para aplicações quando as condições do solo dificultarem a entrada de máquinas.
Adubação da cebola pode precisar ser fracionada
Outra recomendação apresentada durante o encontro foi dividir as aplicações de adubo ao longo do ciclo. A estratégia busca reduzir as perdas provocadas pela chuva. “Talvez seja necessário parcelar mais as adubações de cobertura, não jogar tudo de uma vez. Se sabe que vai chover e pode lavar, é preciso adaptar o manejo”, comentou Kirchner. Para o representante da Bayer, cada produtor deve discutir as decisões com o engenheiro agrônomo ou técnico responsável pela propriedade.
Além do clima, ele citou a redução da área plantada e a possibilidade de menor produção como fatores que podem influenciar o mercado da cebola. “Por ser um ano mais desafiador, temos a questão da área diminuída e uma produção talvez um pouco menor. No final, existe a possibilidade de preços melhores. É a nossa expectativa olhando o cenário de mercado”, concluiu.
Ouça a reportagem de Berta Thiesen:
Ronaldo Coutinho em palestra sobre El Niño. Foto: Berta Thiesen