O Centro de Recuperação Nova Esperança (Cerene), em Ituporanga, mantém atendimento voltado a mulheres que enfrentam problemas relacionados ao álcool e às drogas. O tratamento dura seis meses e segue uma rotina com regras definidas, acompanhamento psicológico e atividades coletivas.
Durante o período de acolhimento, as mulheres permanecem sem acesso ao celular e participam de diferentes etapas do tratamento. Além disso, a instituição trabalha aspectos como autonomia, gerenciamento das emoções, convivência e preparação para a continuidade do acompanhamento após a saída.
Segundo a psicóloga Kerlain Spier, as pacientes chegam ao Cerene com histórias distintas e, muitas vezes, marcadas por diferentes formas de vulnerabilidade. Entre elas estão situações de violência patrimonial, física e psicológica. “Hoje, por causa da complexidade dessa vulnerabilidade, é muito difícil a gente ter uma mulher que tenha apenas um vício isolado. A maior parte delas vem com o uso associado, o uso misto, que a gente chama”, explica a psicóloga.
Dependência química feminina exige trabalho com a rede de atendimento
Os casos atendidos também podem envolver outras condições que precisam de acompanhamento. Por isso, o Cerene mantém contato com diferentes serviços públicos e com as famílias das mulheres acolhidas.
De acordo com a psicóloga Kerlain Spier, essa articulação envolve estruturas como os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS) e as equipes municipais de assistência social. “A gente precisa sempre trabalhar de forma articulada com a rede, CAPS, CREAS, assistência social do município, da família e do pessoal que trouxe a acolhida até aqui com a gente”, afirma.
Segundo ela, a presença de outros transtornos ou condições associadas ao uso de álcool e drogas pode tornar o processo de recuperação mais complexo. A procura pelo atendimento é alta. No entanto, um dos desafios está em garantir que a paciente chegue à instituição e permaneça no tratamento durante os seis meses. Além disso, o preconceito relacionado à dependência química entre mulheres também aparece como uma dificuldade durante o processo de recuperação.
Terapia em grupo busca desenvolver autonomia e apoio entre mulheres
O Cerene realiza atendimentos psicológicos individuais e atividades terapêuticas em grupo. Uma das bases adotadas pela instituição é o apoio entre as próprias participantes. “A gente trabalha em cima do pilar do apoio de pares. Todos os nossos grupos terapêuticos são voltados para essa questão do trabalho em equipe e da ajuda mútua”, explica a psicóloga Kerlain Spier.
Durante essas atividades, a equipe apresenta ferramentas para que as mulheres desenvolvam habilidades necessárias para a vida fora da instituição. “Com isso, a gente fornece ferramentas dentro das linhas abordadas para ajudar elas a irem desenvolvendo autonomia, gerenciamento das emoções e dos conflitos”, acrescenta.
O tratamento não se limita ao acompanhamento psicológico. As pacientes também participam de aulas de arte e artesanato, atividades físicas, alongamentos, momentos de integração e tarefas relacionadas ao cotidiano da casa.
Tratamento no Cerene é início do processo de recuperação
A permanência no Cerene representa uma etapa do tratamento. Após os seis meses, a orientação é que as mulheres continuem recebendo acompanhamento fora da instituição.
Para a psicóloga Kerlain Spier, reconhecer a necessidade de apoio é um dos primeiros passos do processo. “O mais importante de tudo é você lembrar que você é um ser humano e que você pode pedir ajuda para alguém. Vão existir pessoas dispostas a te ajudar, sem esperar nada em troca”, afirma.
Segundo ela, a continuidade do tratamento após a saída também faz parte dos objetivos da instituição. “A nossa maior alegria é quando as meninas saem aqui do Cerene e continuam o tratamento fora do Cerene. Nós somos só o início, uma porta de entrada para uma vida diferente”, diz.
Por fim, a psicóloga deixa uma orientação às mulheres que enfrentam problemas relacionados ao álcool ou às drogas. “Não tenha vergonha de pedir ajuda. Pedir ajuda é muito bom.”
Ouça a reportagem de Berta Thiesen:
Cerene. Foto: Estefani Klettenberg / Sintonia FM