Uma realidade pouco visível, mas presente no cotidiano do Alto Vale do Itajaí, é o acolhimento institucional de crianças e adolescentes afastados de suas famílias por situações de abandono, negligência ou violência. Atualmente, cerca de 100 crianças e adolescentes vivem em unidades do Instituto Lar da Menina e dos lares Mover Caminhos, espalhados por municípios da região. O trabalho é coordenado por Patrick Munzfeld, diretor do Lar da Menina, em Rio do Sul, que também responde pela gestão das unidades Mover Caminhos em Presidente Getúlio, Trombudo Central e Rio do Oeste.
Segundo Patrick, apesar de pouco comentada, a demanda por acolhimento é significativa na região. “Infelizmente, temos muitas situações de negligência, abandono e violência. A maioria das crianças chega até nós por esses motivos”, explica. Ele reforça que, por determinação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), grande parte das informações sobre os acolhimentos corre em segredo de justiça, o que limita a divulgação de detalhes para proteger os menores.
Cuidado diário e apoio da comunidade
Dentro das instituições, as crianças recebem atendimento integral. Alimentação, vestuário, acompanhamento escolar e cuidados emocionais fazem parte da rotina. As crianças frequentam escolas regulares e contam com equipes que atuam em regime de plantão, garantindo atendimento 24 horas por dia. No Lar da Menina, por exemplo, são 25 crianças acolhidas e 25 funcionários, número necessário para manter o funcionamento contínuo da unidade.
O custeio básico é feito por meio de repasses das prefeituras de origem de cada criança. No entanto, esse valor cobre apenas despesas essenciais. Para garantir experiências que fazem parte da infância, como passeios, roupas novas, material escolar diferenciado e viagens, as instituições dependem do apoio da comunidade por meio de campanhas, pedágios solidários, eventos beneficentes e doações.
Brechó e campanhas viabilizam lazer e integração social
Uma das iniciativas para arrecadação é o brechó solidário mantido pela instituição. Roupas doadas que não são utilizadas pelas crianças são vendidas a preços simbólicos, e o valor arrecadado retorna integralmente para atividades com os acolhidos. “Eles também têm desejos, preferências. Não é porque estão acolhidos que deixam de ser crianças e adolescentes”, ressalta Patrick.
Em janeiro, por exemplo, todas as crianças atendidas pelos lares devem participar de uma viagem à praia. A ação envolve planejamento financeiro e logístico, mas é vista como fundamental para o desenvolvimento emocional dos acolhidos. “Eles escutam os colegas falando que vão viajar, visitar familiares. A gente faz esse esforço para reduzir o impacto emocional e não deixá-los para trás”, afirma o diretor.
Regras do acolhimento visam proteção e estabilidade emocional
Patrick também esclarece dúvidas frequentes da população sobre adoção. O processo não é conduzido pelas instituições, mas sim pelo Poder Judiciário. Interessados devem procurar o fórum da comarca para realizar o cadastro e iniciar o processo legal. Somente após essa etapa ocorre a aproximação com as crianças, sempre com acompanhamento técnico.
Outro ponto destacado é a impossibilidade de visitas livres aos lares. Segundo Patrick, permitir visitas sem critério pode gerar traumas e falsas expectativas. “O lar é a casa dessas crianças. Visitas criam esperança de adoção que muitas vezes não pode ser cumprida. Isso machuca emocionalmente”, explica.
As instituições atendem crianças desde recém-nascidos até adolescentes próximos da maioridade. Em alguns casos, jovens que completam 18 anos permanecem acolhidos por não terem condições emocionais ou psicológicas de viver de forma independente, aguardando decisão judicial.
Mais do que abrigo, o acolhimento institucional no Alto Vale representa um trabalho contínuo de reconstrução de vidas. Uma realidade que existe, impacta diretamente a região e depende do envolvimento do poder público e da sociedade para garantir proteção, dignidade e futuro a crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade.
Lar da Menina em Rio do Sul. Foto: Patrick Munzfeld - Diretor Lar da Menina