O Brasil tem uma das menores taxas de mortalidade neonatal em crianças dos últimos 34 anos. As informações foram divulgadas em março pelo Fundo das Nações Unidas (Unicef).
Em 1990, a cada mil nascidos, 25 morriam ainda recém-nascidas, ou seja, antes de completarem 28 dias de vida. Já em 2024, este número caiu para sete a cada mil. Mesmo com o avanço dos indicadores nacionais, cada caso envolvendo a perda de um bebê mobiliza famílias, equipes de saúde e instituições.
Em Ituporanga, o casal Diego Gonçalves e Thaís Soares Machado procurou a Sintonia FM para relatar questionamentos sobre o atendimento obstétrico recebido no Hospital Bom Jesus. Segundo os pais, a filha Maria Clara morreu no dia 18 de junho, após uma parada cardíaca durante o acompanhamento do trabalho de parto. A família afirma que busca respostas sobre a condução do atendimento e pretende levar o caso à Justiça.
Atendimento obstétrico no Hospital Bom Jesus
A mãe, Thaís Soares Machado, contou que acordou com contrações e, conforme o prontuário, ela chegou ao hospital às 10h48. No primeiro atendimento, a equipe constatou quatro centímetros de dilatação e iniciou o monitoramento dos batimentos cardíacos da bebê.
Thaís afirmou que o primeiro procedimento foi o cardiotoco, exame usado para acompanhar os batimentos do bebê e as contrações da mãe. Segundo ela, a médica informou que o exame estava adequado, mas que a bebê apresentava batimentos acelerados. “Eles fizeram o cardiotoco e, segundo a médica, meu cardiotoco estava bonito, porém a minha bebê estava taquicárdica. Agora eu sei que ela estava com os batimentos elevados”, disse. Depois disso, segundo a mãe, ela recebeu orientação para permanecer no chuveiro durante parte do trabalho de parto.
Batimentos da bebê deixaram de ser ouvidos
De acordo com o relato da família, a equipe acompanhou Thaís após a saída da médica. Em um primeiro momento, os batimentos da bebê teriam sido ouvidos com aceleração. Depois, em nova avaliação, estariam normais.
Na terceira escuta, segundo Thaís, a equipe não conseguiu mais ouvir o coração da criança. “Chamou a enfermeira chefe do hospital. Não escutou o coraçãozinho debaixo do chuveiro. Eu me ofereci para sentar no vaso para ver se ela escutava. Ali também ela não escutou”, afirmou. A mãe relatou que, em seguida, foi levada para a cama e a médica retornou para uma nova avaliação. Depois disso, a cesariana de emergência foi indicada.
Prontuário registra parto de dois minutos
A família afirma que o procedimento ocorreu com urgência. Conforme Thaís, o prontuário registra o parto entre 13h14 e 13h16. Após o nascimento, segundo os pais, outro médico foi chamado para atuar na reanimação da bebê. Como Ituporanga não possui UTI neonatal, o Hospital Regional de Rio do Sul precisou ser acionado.
De acordo com as informações repassadas pela família, o prontuário registra o acionamento por volta das 16h30. O casal também afirma que o SAMU não tinha UTI móvel disponível naquele momento. O transporte aéreo teria sido avaliado, mas não ocorreu por questões climáticas e de horário.
Mãe não viu a filha
O pai, Diego Gonçalves, afirmou que conseguiu ver a filha cerca de duas horas após o parto. Segundo ele, naquele momento, a bebê já estava sem vida. A mãe, Thaís Soares Machado, disse que pediu para ver a filha ainda na sala de parto, mas não recebeu autorização.
“Eu pedi para ver a minha filha na sala de parto e ele disse que eu não poderia. Em nenhum momento eu vi minha filha. Ela foi enterrada e eu não vi a minha filha ainda”, afirmou. A família também relatou que a psicóloga do Hospital Bom Jesus fez contato com os pais em dois momentos: quando Diego foi chamado para ver a bebê e durante a alta de Thaís.
Hospital solicitou prazo para análise do prontuário
Após o caso, os pais participaram de uma reunião com representantes do Hospital Bom Jesus. Segundo a família, participaram do encontro o administrador, a diretora da entidade, a chefe da enfermagem e a médica responsável pelo atendimento.
De acordo com o casal, a instituição solicitou 60 dias para análise dos prontuários por uma comissão técnica. O objetivo seria verificar a conduta adotada durante o atendimento. Os pais afirmam que pretendem acionar a Justiça. “Nada vai trazer a Maria Clara de volta, mas a gente quer justiça para que outros pais não sofram o que a gente sofreu”, disse Taís.
Manifestação do HBJ
Entramos em contato com o Hospital Bom Jesus, que nos enviou a seguinte nota de esclarecimento:
“O Hospital Bom Jesus manifesta profundo pesar pelo desfecho ocorrido recentemente durante a assistência a uma gestante atendida na maternidade da instituição. Sobre o atendimento a gestante, cabe esclarecer que desde a identificação das complicações no parto, toda a equipe multiprofissional foi mobilizada de forma imediata. Foram empregados todos os recursos técnicos e assistenciais disponíveis e foram seguidos rigorosamente todos os protocolos estabelecidos para situações de emergência obstétrica. Da mesma forma, toda a assistência necessária foi prestada à recém-nascida que, ainda com vida, foi transferida pelo SAMU para o Hospital Regional Alto Vale, em Rio do Sul, unidade de referência em alta complexidade para a região e que dispõe de UTI Neonatal, local onde acabou ocorrendo o óbito da bebê. A instituição informa que neste momento, em respeito à privacidade da paciente e de seus familiares, e também levando em conta o sigilo das informações em saúde não serão divulgadas informações sobre o atendimento ou informações clínicas relacionadas ao caso. A entidade acrescenta ainda, que todas as circunstâncias que envolveram a ocorrência estão sendo minuciosamente apuradas e caso sejam identificadas falhas nos processos assistenciais, as devidas providências serão tomadas. O Hospital Bom Jesus, reafirma seu compromisso com a segurança dos pacientes, a qualidade da assistência, a ética e a transparência, permanecendo à disposição da família e das autoridades competentes para os esclarecimentos necessários. Neste momento de profunda tristeza, renovamos nossa solidariedade à família e expressamos nossos mais sinceros sentimentos. Equipe de Gestão do Hospital Bom Jesus.”
Ouça a reportagem de Berta Thiesen:
Imagem Ilustrativa / Bebê. Foto: Reprodução / Defensoria Estado Amazonas