Debater ou não debater deixou de ser apenas uma questão de agenda nesta eleição. Virou estratégia. Na noite em que deveria ocorrer o último debate presidencial antes do primeiro turno, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva escolheu outro palco. Em vez da televisão aberta e do confronto direto com adversários, participou de uma entrevista no Flow Podcast.
Lula não foi o único. Flávio Bolsonaro também desistiu do encontro da Globo poucas horas antes. Ao longo da campanha, ausências dos principais candidatos já haviam contribuído para o cancelamento de outros debates. O episódio, portanto, levanta uma questão que ultrapassa partidos e candidaturas: até que ponto é saudável para uma eleição que candidatos possam substituir debates por ambientes escolhidos pelas próprias campanhas?
Não se trata de diminuir o podcast. Muito pelo contrário. Plataformas digitais conquistaram espaço, audiência e relevância no debate público. Uma entrevista longa pode permitir explicações que os poucos minutos disponíveis em um debate dificilmente comportam. Mas entrevista e debate cumprem papéis diferentes.
Em uma entrevista, o candidato responde aos questionamentos dos entrevistadores. No debate, além disso, precisa responder aos próprios adversários, contestar informações e ter suas propostas confrontadas diretamente por quem disputa o mesmo cargo. É justamente o desconforto que faz parte desse formato.
Lula argumentou no Flow que não considera produtivo o modelo atual de debates com vários candidatos. Segundo ele, o pouco tempo disponível prejudica a discussão e abre espaço para provocações. É uma crítica que merece ser considerada. Mas também existe uma pergunta do outro lado: se cada candidato decidir participar apenas dos ambientes que considera adequados, quem estabelece as condições do confronto eleitoral?
A televisão já não possui o monopólio da comunicação política. Podcasts, transmissões ao vivo e redes sociais mudaram definitivamente uma campanha presidencial. Isso não precisa representar um problema. O problema começa quando a diversidade de plataformas passa a servir não para ampliar o debate, mas para substituir o confronto.
Talvez seja exatamente por isso que os debates ainda tenham valor. O eleitor não precisa apenas ouvir o candidato quando ele escolhe falar. Também precisa ter a oportunidade de observar como ele reage quando alguém está diante dele para discordar.
Quando o candidato escolhe o palco - Imagem Ilustrativa. Foto: Geração de IA