Polícia caça aliciadores de jovens catarinenses para tráfico internacional de drogas

Ao passar pela fiscalização da bagagem, o nervosismo a entrega. Pelo raio X, policiais observam sinais suspeitos no interior das duas malas e decidem vasculhar. Em segundos, estava selado o triste destino de mais uma catarinense envolvida com traficantes: a cadeia e um julgamento por tráfico internacional de drogas. A prisão da recepcionista de Florianópolis, Jéssica Jadete Gonçalves, 24 anos, flagrada com 3,5 quilos de cocaína no aeroporto internacional do Recife, no dia 27 deste mês, colocou os arregimentadores de jovens para o tráfico em Santa Catarina novamente na mira da Polícia Federal (PF).

Mesmo com sucessivas operações e prisões nos últimos anos, tanto pela PF quanto pelas polícias Civil e Militar, criminosos seguem fazendo vítimas com a falsa promessa do dinheiro fácil e do glamour das drogas. O crescimento da rota SC-Europa seria outro fator predominante para a atividade.

Janete foi dada pela polícia como uma mula – assim são chamados os transportadoras de droga – e alvo de traficantes especializados em recrutar pessoas com o perfil para a viagem ao exterior. Ela praticamente não colaborou com a PF ao ser presa e as informações repassadas aos policiais ainda estão sendo checadas.

O delegado da PF em Florianópolis, Gustavo Trevisan, chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), afirma ser comum presos como mulas fornecerem dados falsos, trocados ou contraditórios. O motivo é o medo da pressão imposta pelos traficantes.

Empregada em Florianópolis, Janete narrou ter conhecido o aliciador em uma balada. Para levar as malas com cocaína a Portugal receberia R$ 10 mil. Aos familiares, conforme a polícia, teria dito que faria um curso na Europa – a reportagem não conseguiu contato com o advogado dela.

Investigação mira dono das drogas

Os passos dados por ela antes de ser descoberta estão sendo refeitos pela PF, que mira na captura do chamado "patrão", ou seja, o dono da droga que seria enviada à Europa. Em investigações desse porte, a polícia busca os emissários das passagens, as câmeras de estabelecimentos comerciais, ouve pessoas do círculo de amizade, colhe depoimentos e analisa mensagens eletrônicas.

Quadrilhas que fazem esse recrutamento e embarcam as mulas costumam ter vários integrantes. Não chegam a ser criminosos violentos que andam armados nem chefes de facções, mas usam de artifícios amedrontadores, chantagens e ameaças. Tanto para quem embarca quanto para os familiares. Há casos, depois das apreensões, que familiares recebem cobranças para repor a droga.

— Esses jovens são iludidos com o quê a viagem proporciona: conhecer outro país, ganhar status e ainda receber volume grande de dinheiro na volta. Pode até dar certo uma vez, mas uma hora a polícia acaba descobrindo e a pena para o tráfico internacional é aumentada e alta — ilustra o delegado Pedro Henrique de Paula, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE) da Diretoria Estadual de Investigações Criminais (Deic).

Na Grande Florianópolis, há um histórico de envolvimento de catarinenses com o tráfico internacional. Algo que surgiu no início dos anos 2000, quando mulas ou cavalos (homens eram assim denominados na gíria do tráfico) embarcavam com cocaína para o mercado estrangeiro europeu (ou de outros continentes).

Lá, lucravam com a venda de pagamentos bem superiores ao da América do Sul e ainda retornavam com drogas sintéticas (ecstasy) para a comercialização no Brasil. Além de malas, recheavam pranchas de surfe e equipamentos de asa delta. Em troca recebiam grandes somas em dinheiro.

Dezenas de jovens foram presos no Brasil e exterior em ao menos sete grandes operações da PF e Deic. Algumas de grande repercussão como a Playboy (2005), Voyage (2011), Curió (2012) e Bomba Trans (2013). A cocaína vem de países da América do Sul como Peru e Bolívia. Geralmente, passa pelo Paraguai antes de entrar no Brasil.

O drama das famílias 

Ex-funcionária de um salão de beleza de Itapema e natural de Canelinha, Morgana dos Santos, 26 anos, está presa na Itália desde o dia 5 de junho de 2016. Policiais italianos a prenderam no aeroporto de Milão quando desembarcava do Brasil com cocaína na bagagem. Dali em diante, a falta de notícias concretas e informações dela agravaram o cenário de apreensão aos familiares em Santa Catarina. Na época, parentes descreveram como "um pesadelo".

— As famílias vivem dramas de novela, são meses agonizantes e até anos com o desfecho processual. Há medo, compaixão, desalento na família, surpresa, muitas vezes por tal ato desvairado. Há muitos presos no RJ e SP da região de Floripa, Tijucas, Itapema e Balneário — afirma o advogado Telemaco Marrace de Oliveira.

A promessa de conhecer lugares novos, dinheiro e a adrenalina são os ingredientes que o tráfico utiliza como isca para fisgar jovens, diz o advogado que tem vários clientes presos por esse crime, entre eles Morgana dos Santos. A pena para tráfico internacional de drogas pode chegar a 20 anos de prisão. 

Segundo o Itamaraty, havia 732 brasileiros presos no Exterior por tráfico de drogas em 2016. Nos próximos meses, um novo levantamento será divulgado. Muitos são de Santa Catarina (não há divulgação por Estado de origem) e estão presos em países como Portugal, França e Holanda.

O Itamaraty afirmou ainda que presta assistência consular cabível conforme o caso e o interesse do brasileiro. As providências são, por exemplo, em orientação jurídica, visitas consulares, contato com autoridades locais e familiares e fornecimento de bens de primeira necessidade. No entanto, encargos financeiros relativos à manutenção econômica do preso correm sempre por conta das autoridades locais.

 

Foto: Editoria de Arte / Diário Catarinense

 

Delegado da Polícia Federal explica como é o aliciamento 

Facções criminosas violentas cresceram o olho nos lucros do tráfico internacional e o envio de mulas catarinenses ao exterior, diz Gustavo Trevisan, delegado da Polícia Federal em Florianópolis. A PF investiga as conexões para chegar aos patrões e alerta para a pressão e riscos aos jovens que se envolvem:

Há seguidas prisões de catarinenses com malas de cocaína. Continua a todo vapor esse tipo de tráfico internacional?
Continua e a gente está vendo que eles estão usando agora aeroportos com voos diretos para Portugal, Lisboa, começando a usar Recife, Porto Alegre, Belo Horizonte. Eles imaginam que há menor fiscalização nesses aeroportos que têm menos movimento de passageiros.

A presa no Recife (Jéssica Gonçalves) tinha antecedentes criminais?
Não tinha. O que ela fala no interrogatório dela para a polícia, pelo que apuramos, não bate nada. Talvez seja medo de entregar, nomes foram trocados.

Ainda há catarinenses presos por tráfico pelo mundo?
Sim, em Portugal tem bastante, na França (também). Geralmente a sentença sai em seis meses no máximo. Ficam presos mesmo três anos, quatro anos, até serem extraditados. Lá fora existe progressão de regime como no Brasil.

Como agem os aliciadores em Florianópolis?
Tem um padrão, perfil de jovem. Eles pegam muito na noite.

Sofrem que tipo de chantagem depois que aceita?
Tem muita pressão. Agora está tendo muita aproximação desses grupos criminosos, facções. Como é um tipo de tráfico que dá muito lucro, elas querem entrar nesse tipo de tráfico também. Então aquele criminoso que está fazendo assalto começa a colocar R$ 10 mil para tentar tirar R$ 50 mil, R$ 100 mil.

Essa cocaína embalada nas malas vem de onde?
Geralmente vem da Bolívia, passa pelo Paraguai e de lá é trazida para cá. O cara que embala e envia a droga geralmente compra ela de outro traficante de Florianópolis.

 

Por Diogo Vargas

Diário Catarinense 

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