Depoimento de ex-motorista reforça cerco da PF a Temer

Depoimento de ex-motorista reforça cerco da PF a Temer

Foto: José Cruz / Agência Brasil

 

O depoimento de um ex-motorista de uma empresa de transporte de valores é o mais um capítulo da investida policial ao presidente Michel Temer. Ouvido no escopo da investigação que rastreia repasse de R$ 10 milhões da Odebrecht à campanhas eleitorais do PMDB, o policial militar Abel de Queiroz relatou à Polícia Federal (PF) ter feito ao menos duas entregas de dinheiro no escritório do advogado José Yunes, amigo íntimo e ex-assessor Temer. A revelação foi feita neste domingo, em reportagem do jornal Folha de S. Paulo

Em outro flanco, a PF apura a participação de Temer num suposto esquema de lavagem de dinheiro por meio de imóveis. A filha do presidente, Maristela Temer, prestou depoimento na última quinta-feira e não está descartada a intimação da primeira-dama, Marcela Temer, compradora de uma casa que pertenceu a Yunes. 

O advogado e o coronel João Baptista Lima Filho, também amigo próximo do presidente, já são réus, sob acusação de organização criminosa. Segundo o Ministério Público Federal, eles fazem parte de um núcleo político, batizado pelos policiais de "quadrilhão do PMDB", criado especialmente para cometer crimes contra empresas e órgãos públicos. O próprio Temer chegou a ser denunciado pela Procuradoria-Geral da República neste caso, mas a Câmara não autorizou que o processo tivesse continuidade no Supremo Tribunal Federal.

O novo ingrediente no cerco a Temer é o depoimento de Queiroz, prestado à PF em 28 de março. Além de detalhar para os policiais os repasses de dinheiro, o ex-motorista identificou os sobrenomes dos funcionários que efetivamente teriam entrado no escritório de Yunes para entregar a encomenda. Segundo ele, os agentes eram "Oliveira" e "Alves". 

Queiroz salientou que não tinha contato o autor dos repasses nem com seus destinatários, embora tenha citado o nome de uma secretária de Yunes, identificada como Shirley.  O motorista, no entanto, não soube afirmar com precisão as datas dos pagamentos, tampouco o valor de cada operação. Mas lembrou que o valor máximo das remessas era R$ 300 mil, por conta da apólice de seguro, mas que em 2014 essa cifra aumentou em virtude das eleições. 

Em depoimento voluntário à PF, o próprio Yunes já havia admitido ter recebido um pacote em seu escritório. Na ocasião, ele disse ter servido de "mula involuntária" do ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha. Yunes afirmou desconhecer o conteúdo do pacote e sua origem, mas afirmou que recebeu a encomenda a pedido de Padilha. 

Operador do PMDB e delator da Lava-Jato, Lúcio Funaro deu mais detalhes sobre a transação. Conforme Funaro, tratava-se de R$ 1 milhão que ele mesmo foi buscar R$ 1 milhão no escritório de Yunes a pedido do ex-ministro Geddel Vieira Lima. O operador ressaltou que Yunes sabia tratar-se de dinheiro, de quem recebeu pessoalmente o R$ 1 milhão em uma caixa, dentro da garagem do escritório. Planilhas do departamento de propina da empreiteira registram a entrega de R$ 1 milhão a Yunes em 4 de setembro de 2014. 

O dinheiro seria uma parcela dos R$ 10 milhões prometidos ao PMDB em reunião no Palácio do Jaburu com a presença de Temer e Padilha, bem como do presidente da empresa, Marcelo Odebrecht. O acerto foi delatado pelo ex-diretor de Relações Institucionais da Odebrecht Cláudio Mello Filho. O advogado de Temer, Brian Alves Prado, afirmou que não teve acesso ao depoimento do ex-motorista da Transnacional, portanto não iria se manifestar. Já o advogado de Yunes, José Luís de Oliveira Lima, disse que seu cliente "jamais se prestou a desempenhar o papel de intermediário".

O cerco da PF

Alvo de de duas denúncias criminais barradas na Câmara e de outros dois inquéritos no STF, o presidente Michel Temer vê a PF cada vez mais no seu encalço. Acompanhe as investidas mais recentes:

- Em 2 de março, o ministro Edson Fachin, do STF, incluiu o presidente Michel Temer no inquérito do quadrilhão do PMDB. Até então, eram investigados no caso apenas os ministros Eliseu Padilha (Casa Civil) e Moreira Franco (Minas e Energia). 

- Três dias depois, o ministro Luís Roberto Barroso, também do STF, quebrou o sigilo bancário do presidente. O procedimento ocorreu no inquérito dos portos, no qual Temer é investigado por supostamente beneficiar empresas do setor portuário. 

- Em 29 de março, Barroso determinou a prisão de amigos de Temer, como José Yunes e o coronel João Baptista Lima Filho, bem como de empresários do ramo portuário. Três dias depois, Yunes e Lima foram soltos. 

- Em depoimento à PF, o dono do Grupo Libra, Gonçalo Torrealba, declarou ter conhecimento de que o coronel Lima atuava com arrecadador de Temer. Com operações no porto de Santos, Torrealba fez doações para campanhas do PMDB.

- Intimada a depor como testemunha, uma das filhas de Temer, Maristela, disse à PF que reformou um imóvel em São Paulo com ajuda do Coronel Lima "na camaradagem". A obra é investigada pela PF por suspeita de lavagem de dinheiro.

- A PF não descarta intimar a primeira-dama Marcela Temer a depor. Marcela comprou um imóvel em São Paulo do advogado José Yunes. Temer diz ter emprestado R$ 800 mil à mulher para a conclusão do negócio, também investigado pela PF. 

DETALHE

MDB ou PMDB?

Durante a convenção nacional do partido, em dezembro, O PMDB decidiu trocar o nome da legenda. Por 325 votos a 88, os delegados aprovaram a volta da sigla MDB (Movimento Democrático Brasileiro), pela qual o partido foi fundado em 1966, durante o bipartidarismo imposto pelo regime militar. A Justiça Eleitoral, porém, ainda não permitiu a troca do nome. Pelo menos três diretórios municipais - Porto Alegre, Florianópolis e Curitiba - contestaram a mudança e o ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) Admar Gonzaga determinou que o diretório nacional do partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) apresente defesa no caso. 

 

Por Fábio Schaffner

Diário Catarinense

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